Serena no jardim

Download PDF
Jardim sereno

Jardim sereno

Penso, às vezes
No que ficou para trás
Versos feitos em cima de pedras
Pedras desgastadas entre a solidão
E um templo de utopia
Ao longe, a caminho da montanha!

Como desejei ter ali
A saudade da mão de alguém
E o abraço quente
Na brisa fria
De um monte
De ventania.

E ali, no cimo da rocha breve
Vi na névoa lisa, mar de ontens
Muro que separa o terreno do etéreo
Que toda a minha desorientação
Poesia, música e indecisão
É o resultado da vã procura
Que procurando tudo em redor
Sem saber, sempre te procura…
A ti
Que dormes serena
No jardim.

Pedro Barão de Campos.

 

Dedos no ar..

Download PDF

Dedos no ar

Dedos no ar
Ponham os dedos no ar!
Quando quiserem pedir ao sol que vos ilumine…
Quando quiserem soltar as ondas do vazio…
Ou escutar a melodia de um olhar…
Façam o favor…
De pôr os dedos no ar…!

Dedilhando versos…
Pedia ao vento que soprasse sobre mim…
E me afastasse o desespero…
Este que o odor a saudade me provoca aqui…

Sou um prédio inteiro
Com varandas abertas para o céu
Tenho caves escondidas
E quartos ocultos
Paredes secretas
Que segredam os medos e os sustos..
E morro quando o bater de uma asa
Sacode o silêncio frio do momento

Dói a cor
Dói o gesto
Sinto falta de nós os dois
E não estou Eu aqui

Onde estou?
Então onde estou?
Alguém me ouve…? Alguém me responde…!?

Ah… já me esquecia de pôr o dedo no ar…
O dedo no ar…
Para Deus me ouvir.. dizer…
Reflectir.. duvidar, perguntar…
Onde está Deus…!?

 

Pedro Barão de Campos.

 

Labirinto

Download PDF
Labirinto
 

Longe…

Quero estar longe.
Há tantas palavras que fogem dos meus dedos
E pensamentos que negam quem sou…
Longe…
Queria apenas estar longe.
Não de algo em particular
De uma pessoa ou de um lugar
Mas longe de mim..
Longe do pensamento…
Longe… de pensar..!
É que pensar faz doer
Quando a lembrança e pergunta
Se unem numa só resposta
Há tanta coisa que dói sentir..!
Dói, sentir a dor vaga
Da memória que respira aqui
Exaltam-se os braços
Esticam-se os cabelos no chão
Há lábios que se amarram
Na antecâmara da negação!
Quando a loucura já é em vão
Displicente a lanterna
Que percorre a noite vadia
Sou apenas a sombra de um sonho

Que ontem parecia ser verdade, magia

Perto…!
Estive sempre tão perto de todos os lugares…
Perto de um beijo…
Perto de uma estátua para a imortalidade…
Perto de um copo vazio… ou cheio… tanto faz…!

Perto…
Tão perto de estar longe…
Porque é assim…
Nos corredores de um labirinto
Não há trilho ou astrolábio que nos sirva
Para encontrar o caminho de regresso a casa…

Perto…
Quero estar perto.
Há tantos momentos que se reunem entre os meus dedos
E imagens que concretizam quem sou…

Perto…
Queria apenas estar perto…

Perto…
Dos lençóis onde adormeço…!
Perto… num sono tranquilo… de criança a sonhar…
Com a próxima tarde de brincadeira
Jogando às escondidas… um remate poderoso…
No ar… um avião de papel cruza a rota de uma andorinha…
E no imaginário infinitesimal de um horizonte colorido…
Há sempre esse pião a rolar…
Na arca suspensa do peito..
Com tendência para parar.

E ao mesmo tempo…
Há sempre o olhar brilhante… ausente e vibrante..
Reflectindo ao longe…
O perfil enganador das palavras que crescem aqui…
Perto do fim.

É que há sempre um fim.
Seja perto… ou longe… do labirinto.

Pedro Barão de Campos.